Dia 27 de fevereiro recebi homenagem literária na Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo conto “Manuel Poente e Evelyne de Esperança Nascente” publicada no livro Sem Fronteiras Pelo Mundo, volume 3. #SemFronteiras

Compartilhei no facebook e atendendo a pedidos compartilho aqui o texto premiado.

Manuel poente e Evelyne de esperança nascente

Os raios solares aqueciam os tambores na manhã de um verão africano. A mesma
paisagem aquecia até a noite, quando as cores eram as mais belas que se podia ver em qualquer outra parte da abóboda celeste. Era a cor de Angola como uma gema de ovo saindo da clara e aparecendo a luz lunar em toda a sua magnitude! Não havia cenário mais lindo a se observar.

E foi neste lugar que me apresentaram um menino. O seu nome era Manuel, que me fez recordar uma canção de Lô Borges, músico integrante do Clube da Esquina, da minha querida terra das Minas Gerais. Quanta nostalgia!

Neste exuberante entardecer avistei Manuel em sua cadeira que girava, girava de uma
forma muito singular. De repente ele chegou perto de mim e falou aos meus ouvidos:

– Quer ouvir uma canção que aprendi?

Então ele começou a cantar uma música tão linda que sequer pude aprender a letra, mas a melodia era doce e fazia meus ouvidos dançarem como ao som de uma zabumba e sanfona, num devaneio só.

Este mesmo Menino Angola, lembrou-me outra canção da Menina do Céu que cantava a
viagem de um violeiro mirim em seu ritmo dançante. E entre os versos dizia: “com tanto tempo perdido era melhor ser feliz”!

Ficou na minha memória aquela alegria de ter conhecido realmente um Manuel Audaz, que girava em sua cadeira de rodas e cantava, enquanto na minha cabeça surgia a dúvida se a imagem mais bela era a do pôr-do- sol ou da paisagem sonora produzida por aquele menino em sua plena felicidade de maneira simples, sem pés para colocar no  hão, mas com um sorriso tão sublime que me fez viajar na sua canção. Angola lá, lá, lá, em um dia, uma tarde e uma noite de pura poesia!

Mais alguns quilômetros adiante, o Congo dividia Angola de Burundi, onde vivia uma
menina: a Eveline, que tinha pés, mas não tinha sapatos, nem cabelos, pois era costume as crianças ficarem carequinhas naquela região. Em comum Eveline e Manuel tinham o sorriso e o olhar encantador. Ela não sabia nenhuma canção bonita para cantar como Manuel, mas gostava muito de desenhar e era por meio de seus desenhos que ela contava como era a vida da comunidade dela. Ela vivia em um povoado de poucos carros, mas de muitos milharais, pois o que mais plantavam por ali era milho. Usava um vestido amarelo da cor do Sol quando a conheci. Vivia em um dos países mais pobres do mundo, mas tinha uma riqueza de esperança que me contagiou desde o primeiro olhar.

E assim, levei desta viagem um coração palpitante por um novo tempo para a África e para mundo, um tempo em que as crianças cresçam e aqueçam a semente e façam brotar um mundo mais afetuoso!