Brenda_PsiuPoético1Não sou Nicolas Berh para escrever a Brasilíada, mas sem dúvida a lida que tenho com esta cidade se confunde com minha história literária. Comecei minha vida profissional na literatura aos 14 anos, publicando pela Revista Brasília, em 1995. A primeira publicação ninguém esquece. Esta foi fruto de um concurso nacional de crônicas que participei. Meu texto “Ônibus Maluco” foi destaque especial no certame e logo publicado. Lembro que a crônica falava do cotidiano de pegar ônibus e se deparar com pessoas de todo tipo, muitas vezes estigmatizadas e como naquele lugar como um micro sistema da sociedade, se reproduzem preconceitos. Lembro bem da frase de desfecho: “Pensava que eu era maluca, mas agora nem sei.” Este foi só o começo que seguiu com outras publicações de concursos e premiações principalmente com contos e poesias e assim eu e meus textos vamos correndo mundo…

Estranha esta relação que tenho com a capital federal, é como se a cidade envolta de burocracias despertasse em mim a antítese poética. Vivi por quase dois anos ali em 2006 e 2017, quando trabalhei no Cofecon – Conselho Federal de Economia como assessora de comunicação. Depois voltei em 2009 quando lancei na Biblioteca Nacional o livro “Poesia Sonora: histórias e desdobramentos de uma vanguarda poética” e o primeiro volume da antologia Nós da Poesia, que representam também dois novos começos: do primeiro livro de minha autoria publicado e do início do projeto Nós da Poesia que já está indo para o seu sexto volume, com tantas participações em Bienais e eventos literários diversos.

Foi em Brasília, que entre idas e vindas, vivi intensamente e de tal forma, que quando é hora de voltar, mesmo sendo por apenas um dia, logo meus nervos se afloram. Dá uma tensão no ventre, como se ele estivesse prenho, prestes a parir novas histórias. E assim foi nesta viagem recente, depois de quase uma década distante. O convite veio de Aroldo Pereira, organizador do Psiu Poético, salão de poesia que é realizado em Montes Claros, Minas Gerais por mais de três décadas. Cheguei para um dia inteiro de vivências poéticas e à noite performei no Sebinho poesia e sonoridades de Manos Pulsantes, projeto literário que produzi junto com o ítalo-argentino Giuseppe Camelia e logo ganhou também voz e som com Cláudio Carvalho, músico que musicou alguns poemas deste trabalho.

Mas antes mesmo da apresentação, já vivi momentos de plena poesia, quando conheci a poetisa e professora Marli Fróes em quem certamente encontrei no olhar uma nova parceria para minhas andanças poéticas. Juntos eu, ela e Aroldo fomos ao cinema ver Cora Coralina, um filme tão inspirador e tocante! E assim seguiu todo dia, até que ao anoitecer chegamos no Sebinho para uma verdadeira ocupação política de poetas. Fui então percebendo o quanto nas letras fomos oralizando nossas revoluções particulares em um coletivo de verberações por um novo tempo. Afinal, só com poesia se faz revolução!

Não faltou uma taça de vinho para fechar o dia brindando esta terça singular com paixão. Afinal, se tem algo que não pode faltar em uma revolução além de poesia é paixão, daquelas capazes de inflamar. Tem que ter fogo para queimar papéis e cerimônias, pois só queimando a burocracia vira fumaça, e, no lugar dela nasce espaço para a poesia e a paixão, que são combustíveis revolucionários.

De volta a Belo Horizonte nos ares escrevo, feito águia que tem que subir, subir, até alcançar a visão do todo na amplidão. E então percebo que estar apaixonado com a vida, com as pessoas e com as utopias, de forma intensa, é o que aquece minha escrita. E diante de tudo isto me pergunto: como escrever sem paixão?